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Diga-me o que consegues ler e saberei o que publicar

19 de julho de 2012 8 comentários

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil possuía 14,1 milhões de analfabetos maiores de 15 anos em 2009, ou 9,7% desta população. Os dados foram publicados em 2010 na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e referem-se ao ano anterior. O número vem diminuindo timidamente. Era 11,5% em 2004, por exemplo. E, considerada a história social no Brasil, a taxa de analfabetismo nacional até surpreende de maneira positiva. Mas como o mercado editorial deve interpretar e analisar tais dados? Se 9,7% são analfabetos, isto quer dizer que o mercado potencial de compradores de livros é 90,3% da população acima de 15 anos? Infelizmente, ainda estamos longe disso, como mostra a pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), cuja edição de 2011 acaba de ser publicada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa.

A importante iniciativa completou 10 anos, e agora é possível uma visão panorâmica da década que vai entre 2001 e 2011. O grande diferencial do Inaf é que ele divide o analfabetismo em 4 níveis, sendo 3 referentes ao gurpo chamado de alfabetizados pelo IBGE. Vamos a eles:

Analfabetismo: corresponde à condição dos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases.

Nível rudimentar: corresponde à capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como, por exemplo, um anúncio ou pequena carta).

Nível básico: as pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, pois já leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências. Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações.

Nível pleno: classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: leem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses.

Baseado nestes níveis, o Inaf demonstra que durante os últimos 10 anos houve uma redução do analfabetismo absoluto e da alfabetização rudimentar, assim como um incremento do nível básico de habilidades de leitura e escrita. No entanto, a proporção dos que atingem um nível pleno de habilidades manteve-se praticamente inalterada, em torno de 26%, como mostra a tabela abaixo:

INAF BRASIL 2001 a 2011

Evolução do Indicador de alfabetismo da pop. de 15 a 64 anos (2001 a 2011)

Níveis

2001
2002

2002
2003

2003
2004

2004
2005

2007

2009

2011

Analfabeto

12%

13%

12%

11%

9%

7%

6%

Rudimentar

27%

26%

26%

26%

25%

20%

21%

Básico

34%

36%

37%

38%

38%

46%

47%

Pleno

26%

25%

25%

26%

28%

27%

26%

Analf. e Rud.

Analfabetos funcionais

39%

39%

38%

37%

34%

27%

27%

Básico e Pleno

Alfabetizados funcionalmente

61%

61%

62%

63%

66%

73%

73%

base

2002

2002

2002

2002

2002

2002

2002

Obs.: Os resultados até 2005 são apresentados por meio de médias móveis de dois em dois anos de modo a possibilitar a comparabilidade com as edições realizadas nos anos seguintes.

Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro, avalia a situação: “Apesar dos avanços, tornam-se cada vez mais agudas as dificuldades para fazer com que os brasileiros atinjam patamares superiores de alfabetismo. Este parece um dos grandes desafios brasileiros para a próxima década. Os dados reforçam a necessidade de investimento na qualidade, uma vez que o aumento da escolarização não foi suficiente para assegurar o pleno domínio de habilidades de alfabetismo: o nível pleno permaneceu estagnado ao longo de uma década nos diferentes grupos demográficos”.

Para aqueles que escolheram o difícil mas apaixonante ofício de produzir ou vender livros, o mercado potencial é justamente o grupo chamado na tabela de Alfabetizados Funcionalmente, que engloba os níveis Básico e Pleno, e que vem crescendo de forma satisfatória ao longo da última década. Basta observar que em 2001 o índice estava na casa dos 61% contra 39% de analfabetos funcionais, enquanto que no ano passado alcançamos 73% de alfabetizados funcionalmente contra 27% de analfabetos funcionais.

Mas o que mais interessa ao mercado do livro – e aos editores particularmente – é justamente a divisão dos alfabetizados nos níveis Básico e Pleno. Afinal, o segundo engloba aqueles que leitores que potencialmente poderiam adquirir e ler qualquer tipo de livro, mesmo um Dostoiévski ou um Nieztche. Já no nível básico, encontram-se pessoas que conseguem ler um livro, mas teriam sérias dificuldades com textos mais longos e complexos, que exigem grande capacidade de abstração ou elaboração intelectual. Ou seja, são aqueles leitores que nunca lerão os clássicos da filosofia e livros de não-ficção com profundidade analítica ou de conteúdo, mas compraram 8 milhões de exemplares de Ágape, do padre Marcelo, ou choram nas páginas dos livros de Nicholas Sparks.

E esta divisão entre básico e pleno torna-se ainda mais importante na medida que o primeiro grupo vem crescendo substancialmente, partindo de 34% em 2001 para chegar a 2011 com 47%. No mesmo período, o nível pleno manteve-se em 26%. Hoje, portanto 64% dos alfabetizados funcionalmente encontram-se ainda no nível básico e apenas 36% estão no nível pleno. Podemos não gostar da realidade, mas ela está muito clara nos números do Inaf: a maior parte do nosso mercado não tem capacidade para ler os livros resenhados em cadernos e revistas literários, mas leem, se educam, curtem e se emocionam com livros de conteúdo mais simples e de compreensão mais fácil.

Portanto, editores do Brasil, ao decidirmos o que publicar ou em que livro apostar, temos que considerar não só as recentes mudanças socioeconômicas que mostram uma classe C majoritária com 55,8% da população brasileira, conforme pesquisa do Centro de Políticas Sociais da FGV-Rio. Temos que também levar em conta a capacidade de leitura do nosso mercado e a dificuldade da grande maioria dos alfabetizados funcionalmente de ler obras mais complexas e intelectuais.

O Inaf está disponível para download e traz muitos outros dados não abordados aqui, especialmente análises específicas de segmentos populacionais por classe social, região e sexo. Vale a leitura.

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Categorias:Análise, Pesquisas

PublishNews participa de debate sobre livros digitais na OFF FLIP

Escritores, editores e demais flipeiros debaterão nesta sexta-feira, 6/7, em Paraty, os destinos do livro na era digital. Organizada pela OFF FLIP, a mesa Os Livros na Era Digital reunirá para um debate Carlos Henrique Schroeder (diretor editorial da Editora da Casa), Julio Silveira (publisher da Ímã Editorial), Ovídio Poli Junior (editor do Selo Off Flip), Paula Cajaty (editora da Jaguatirica Digital), Ricardo Almeida (diretor do Clube de Autores) e este que vos escreve Carlo Carrenho (diretor do Publishnews). O evento acontece às 15:30 no Silo Cultural, em frente à Casa da Cultura de Paraty.

Desde já, eu agradeço o convite para participar do evento e peço a vocês que compareçam e o divulguem em suas redes. Nos vemos por lá!

Zero Hora menciona PublishNews

O melhor tipo de reconhecimento é aquele que vem dos próprios pares, de pessoas de formação e atuação semelhante à sua. Por isso, é sempre motivo de orgulho quando o PublishNews aparece em jornais e revistas, citado por colegas da mídia. E, nesta segunda-feira, aconteceu de novo. O jornal gaúcho Zero Hora, em uma matéria sobre o clássico o Pequeno Príncipe, me entrevistou como fundador do PublishNews para eu comentar sobre as vendas deste megabest-seller. A matéria “O Clássico O Pequeno Príncipe resiste entre os mais vendidos” foi escrita pelo jornalista Gustavo Brigatti e pode ser acessada gratuitamente. Bas clicar no link. Aproveitem para divulgá-la nas redes sociais!

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