Início > Análise, Mais vendidos, Pesquisas > Uma análise dos dados da GfK

Uma análise dos dados da GfK

A GfK, codinome da Gesellschaft für Konsumforschung, é a maior empresa de pesquisas de mercado da Alemanha que começou a atuar este ano no mercado editorial brasileiro. Na manhã de 14/6, a empresa organizou um evento para apresentar sua ferramenta Painel de Livros, que permite o monitoramento por amostragem das vendas de livro no Brasil. Durante o lançamento oficial, foram apresentados dados consolidados do setor, recolhidos entre janeiro e maio deste ano, como uma espécie de amostra grátis do tipo de informação que a GfK está oferecendo no Brasil. Eu selecionei alguns dos gráficos apresentados e os analiso a seguir.

O gráfico acima é bastante interessante, pois mostra como a crise econômica europeia está afetando o mercado editorial de lá. Dos nove países europeus acompanhados pela GfK, apenas a Bélgica apresentou crescimento entre 2010 e 2011, enquanto Itália, Suíça e Espanha apresentam quedas preocupantes e superiores a 6%. Seria bastante realista supor que em 2012 a queda pode ser ainda maior, especialmente para países como a Espanha, o que já pode ser visto no gráfico a seguir.

É realmente assustador observar que as vendas de maio na Espanha foram 42% menores do que em janeiro. É claro que seria preciso considera a sazonalidade, e o mais correto seria comparar maio de 2012 com maio de 2011. Ainda assim, em uma análise comparativa entre os países do gráfico, fica claro que a situação da Espanha é grave. Vale observar que a GfK se viu obrigada a usar janeiro como base para comparação porque foi neste mês que começou a coletar dados do mercado brasileiro. E, a seguir, encontra-se o gráfico da performance em número de títulos vendidos do mercado brasileiro nos cinco primeiros meses de 2012.

Este gráfico revelou algo meio surpreendente, afinal já é tradição no mercado afirmar que o mês de janeiro é ruim para venda de livros. Portanto, ou tivemos um janeiro fora do padrão neste ano ou a venda de didáticos ao consumidor final já em janeiro elevou o volume de exemplares vendidos. Aliás fica aqui uma sugestão para a GfK: sempre separar livro didáticos e de mercado geral em suas apresentações, pois analisá-los juntos é como somar maçã com laranjas.

O gráfico acima também chamou muito a atenção. Ele tenta mostrar que não são só restaurantes e vestuário que atualmente possuem preços tão altos no Brasil que fazem de Paris uma cidade econômica. No entanto, me sinto na obrigação de fazer uma crítica com espírito construtivo aqui. Como as amostras que levaram a tais números não foram qualificadas nem explicadas – o que é natural, pois tratava-se apenas de uma amostra grátis do que a GfK pode oferecer– ,  gostaria de tecer os seguintes comentários:

Livros não são commodities. Cada mercado possui suas próprias características de produção e consumo, e um país pode consumir mais pockets, outro mais livros coloridos etc. Para uma análise de preços, livros têm de ser considerados papel pintado. Portanto, seria necessário saber se houve ponderação em relação aos formatos gráficos consumidos em cada país. Explico: o mercado de pockets é forte na Espanha e fraco no Brasil, então seria necessário que as amostras fossem ajustadas para permitir uma maior comparação.

Preço por página é mais adequado. Uma variável que não pode ser negligenciada ao se analisar preços de livros é seu número de páginas, e uma forma simples de se ponderar isto é trabalhar com preço por página e não com o preço do livro em si.

A amostra considera Avon e porta-a-porta? Como a amostra não foi qualificada, não posso responder esta pergunta. Mas dado o alto valor do preço do livro brasileiro demonstrado, acredito que empresas como Avon e o setor porta-a-porta não estejam presentes na amostra com seus livros a preços populares.

Câmbio valorizado. Ao se analisar dados como estes, vale lembrar sempre que o Real está bastante valorizado atualmente.

A questão do preço também é comentada pelo jornalista Jorge Félix em sua coluna do Portal iG.

No gráfico acima, a concentração da indústria editorial brasileira é bastante óbvia, pois as 10 maiores editoras chegam a responder por mais de 30% do faturamento do setor em janeiro. Infelizmente, como os números incluem casas didáticas e de mercado geral, fica difícil tentar imaginar quais seriam as tais empresas.

Já neste outro gráfico, fica demonstrada a forte concentração do faturamento em alguns poucos best-sellers. Em maio, por exemplo, os 20 livros mais vendidos geraram 18,5% do faturamento, e os três maiores best-sellers responderam por 3,6% das vendas do varejo de livros. Se observarmos a lista de mais vendidos do PublishNews de maio, os três livros mais vendidos foram Agapinho, do padre-cantante Marcelo Rossi, O filho de Netuno, de Rick Riordan, e O melhor de mim, de Nicholas Sparks. É difícil saber se estes três livros são os mesmos top 3 da GfK, uma vez que os didáticos também foram considerados na pesquisa da empresa alemã.

De qualquer forma, a chegada da GfK é muito bem-vinda, pois sempre carecemos de pesquisas de dados e informações estatísticas da indústria editorial brasileira. Tenho certeza que, ao longo do tempo, a GfK será capaz de oferecer informações cada vez melhores e melhor consolidadas, e isto será excelente para o mercado editorial e para o livro no Brasil!

Willkommen, Gesellschaft für Konsumforschung!

Anúncios
  1. 15 de junho de 2012 às 2:03 pm

    Além da separação dos livros didáticos das demais áreas, seria aconselhável acrescentar, de forma mais detalhada, as outras áreas. Isto é, incluir literatura em geral, infantis, biografias, técnicos, científicos, filosofia e outra divisões.

  2. 15 de junho de 2012 às 2:44 pm

    Caro Maxim, a GfK possui todas estas divisões e quem assinar o serviço terá acesso a elas. Mas na apresentação, eles consolidaram tudo em grandes gêneros.

  3. 15 de junho de 2012 às 3:05 pm

    Fala Carrenho,! Estive no evento e me chamou a atenção o mês de Maio ser maior do que Março.

  4. 19 de junho de 2012 às 1:16 pm

    Acredito que ter uma análise tirando os livros comprados pelos programas do governo é importante pois as compras do governo tem uma dinâmica de marketing, periodicidade e volume bem característicos que distorcem os demais números. Um comentário sobre o livro de bolso é que os livros capa-dura também não são comuns no Brasil. Então na média pode ser que a comparação funcione, pode ser…

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: