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Quando a matemática ensina a escrever

[Advertência: se você tem menos de 40 anos provavelmente vai precisar pesquisar alguns termos desta história… sorte sua que existe o Google!]

Num belo dia na tranquila Araraquara do jovem Ignácio de Loyola Brandão era tempo de fazer a inscrição para o colegial; e naquela época existiam duas opções: Científico (pra área de exatas) ou Normal (pra área de humanas). Mas era o último dia pra fazer isso e ele ainda queria ir assistir a um jogo, na quadra do colégio. A fila do Científico tinha apenas 4 pessoas, a do Normal tinha 80. Foi fácil fazer a escolha. Científico. Mesmo odiando matemática.

“Gosto de fazer as coisas muito bem feitas, por isso fiz os 3 anos do curso em cinco!”, contou o escritor. Pra complicar um pouquinho a sua vida, o último exame do curso era oral. Nos exames escritos a vida de Loyola ficava mais fácil porque ele tinha uma vizinha de carteira que escrevia a cola na coxa. Tudo bem que olhava mais a coxa do que a cola, mas conseguia se safar nos exames. Só que o exame oral não tinha essa “moleza”. Chega o jovem Brandão para seu exame oral.

“Precisa de muita nota?”, perguntou o professor. “Não. Só 9,7.” “Fica tranquilo. Vem comigo”. O professor Ulisses o levou a um lado da sala, que era toda cercada de quadros-negros, e colocou uma expressão na ‘pedra’: “Dei essa mesma expressão na sala de aula. No dia fiquei andando pela sala enquanto os alunos resolviam e peguei você lendo um livro… Lembra?” “Lembro. Do livro – O velho e o mar. Da expressão não.” “Olhe pra trás”, cochichou o professor no ouvido de Loyola. Ele virou e lá estavam as meninas do Normal! As mais bonitas da escola!

Loyola conta: “Virei para o quadro. Não ia fazer feio de jeito nenhum. Comecei a lembrar de todos os símbolos matemáticos que podia. Raiz, potência, logaritmo, seno e cosseno – muito sensual -, o símbolo de infinito e até o Pi que tem uma estética interessante mas não sei pra que serve.” Chegou ao final de uma extensa ‘demonstração matemática’ e finalizou: “igual a 540. CQD (Como queríamos demonstrar).” O professor Ulisses se aproximou, olhou símbolo por símbolo como se executasse a operação mentalmente, e sentenciou: “Dez. Parabéns! Venha comigo até a mesa.”

Ignácio o seguiu e logo foi falando: “Professor, eu sei que vale só o lado direito da nota. Pode falar a verdade.” “Ignácio, você tirou 10. Dez em delírio; dez em imaginação; dez em fantasia. Vai embora Ignácio, que o teu mundo é o da fantasia.” E desde então Ignácio escreve pra gente de tantas idades. Ignácio já é reconhecido por sua obra e com muitos prêmios, e em 2008 venceu o Prêmio Jabuti de Melhor livro do ano com o infantil O menino que vendia palavras. Obrigado professor Ulisses Ribeiro!

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Categorias:Memórias
  1. Micheline
    9 de setembro de 2010 às 10:20 pm

    Que belo texto! Felizmente tenho mais de 40 anos e não precisei procurar nada no Google. Não sei o que mais me encantou, se a história do jovem Ignacio e seu professor, ou o jeito de contá-la. Obrigada, Ricardo Costa

  1. 17 de setembro de 2011 às 9:02 am

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