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Diga-me o que consegues ler e saberei o que publicar

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil possuía 14,1 milhões de analfabetos maiores de 15 anos em 2009, ou 9,7% desta população. Os dados foram publicados em 2010 na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e referem-se ao ano anterior. O número vem diminuindo timidamente. Era 11,5% em 2004, por exemplo. E, considerada a história social no Brasil, a taxa de analfabetismo nacional até surpreende de maneira positiva. Mas como o mercado editorial deve interpretar e analisar tais dados? Se 9,7% são analfabetos, isto quer dizer que o mercado potencial de compradores de livros é 90,3% da população acima de 15 anos? Infelizmente, ainda estamos longe disso, como mostra a pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), cuja edição de 2011 acaba de ser publicada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa.

A importante iniciativa completou 10 anos, e agora é possível uma visão panorâmica da década que vai entre 2001 e 2011. O grande diferencial do Inaf é que ele divide o analfabetismo em 4 níveis, sendo 3 referentes ao gurpo chamado de alfabetizados pelo IBGE. Vamos a eles:

Analfabetismo: corresponde à condição dos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases.

Nível rudimentar: corresponde à capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como, por exemplo, um anúncio ou pequena carta).

Nível básico: as pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, pois já leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências. Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações.

Nível pleno: classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: leem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses.

Baseado nestes níveis, o Inaf demonstra que durante os últimos 10 anos houve uma redução do analfabetismo absoluto e da alfabetização rudimentar, assim como um incremento do nível básico de habilidades de leitura e escrita. No entanto, a proporção dos que atingem um nível pleno de habilidades manteve-se praticamente inalterada, em torno de 26%, como mostra a tabela abaixo:

INAF BRASIL 2001 a 2011

Evolução do Indicador de alfabetismo da pop. de 15 a 64 anos (2001 a 2011)

Níveis

2001
2002

2002
2003

2003
2004

2004
2005

2007

2009

2011

Analfabeto

12%

13%

12%

11%

9%

7%

6%

Rudimentar

27%

26%

26%

26%

25%

20%

21%

Básico

34%

36%

37%

38%

38%

46%

47%

Pleno

26%

25%

25%

26%

28%

27%

26%

Analf. e Rud.

Analfabetos funcionais

39%

39%

38%

37%

34%

27%

27%

Básico e Pleno

Alfabetizados funcionalmente

61%

61%

62%

63%

66%

73%

73%

base

2002

2002

2002

2002

2002

2002

2002

Obs.: Os resultados até 2005 são apresentados por meio de médias móveis de dois em dois anos de modo a possibilitar a comparabilidade com as edições realizadas nos anos seguintes.

Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro, avalia a situação: “Apesar dos avanços, tornam-se cada vez mais agudas as dificuldades para fazer com que os brasileiros atinjam patamares superiores de alfabetismo. Este parece um dos grandes desafios brasileiros para a próxima década. Os dados reforçam a necessidade de investimento na qualidade, uma vez que o aumento da escolarização não foi suficiente para assegurar o pleno domínio de habilidades de alfabetismo: o nível pleno permaneceu estagnado ao longo de uma década nos diferentes grupos demográficos”.

Para aqueles que escolheram o difícil mas apaixonante ofício de produzir ou vender livros, o mercado potencial é justamente o grupo chamado na tabela de Alfabetizados Funcionalmente, que engloba os níveis Básico e Pleno, e que vem crescendo de forma satisfatória ao longo da última década. Basta observar que em 2001 o índice estava na casa dos 61% contra 39% de analfabetos funcionais, enquanto que no ano passado alcançamos 73% de alfabetizados funcionalmente contra 27% de analfabetos funcionais.

Mas o que mais interessa ao mercado do livro – e aos editores particularmente – é justamente a divisão dos alfabetizados nos níveis Básico e Pleno. Afinal, o segundo engloba aqueles que leitores que potencialmente poderiam adquirir e ler qualquer tipo de livro, mesmo um Dostoiévski ou um Nieztche. Já no nível básico, encontram-se pessoas que conseguem ler um livro, mas teriam sérias dificuldades com textos mais longos e complexos, que exigem grande capacidade de abstração ou elaboração intelectual. Ou seja, são aqueles leitores que nunca lerão os clássicos da filosofia e livros de não-ficção com profundidade analítica ou de conteúdo, mas compraram 8 milhões de exemplares de Ágape, do padre Marcelo, ou choram nas páginas dos livros de Nicholas Sparks.

E esta divisão entre básico e pleno torna-se ainda mais importante na medida que o primeiro grupo vem crescendo substancialmente, partindo de 34% em 2001 para chegar a 2011 com 47%. No mesmo período, o nível pleno manteve-se em 26%. Hoje, portanto 64% dos alfabetizados funcionalmente encontram-se ainda no nível básico e apenas 36% estão no nível pleno. Podemos não gostar da realidade, mas ela está muito clara nos números do Inaf: a maior parte do nosso mercado não tem capacidade para ler os livros resenhados em cadernos e revistas literários, mas leem, se educam, curtem e se emocionam com livros de conteúdo mais simples e de compreensão mais fácil.

Portanto, editores do Brasil, ao decidirmos o que publicar ou em que livro apostar, temos que considerar não só as recentes mudanças socioeconômicas que mostram uma classe C majoritária com 55,8% da população brasileira, conforme pesquisa do Centro de Políticas Sociais da FGV-Rio. Temos que também levar em conta a capacidade de leitura do nosso mercado e a dificuldade da grande maioria dos alfabetizados funcionalmente de ler obras mais complexas e intelectuais.

O Inaf está disponível para download e traz muitos outros dados não abordados aqui, especialmente análises específicas de segmentos populacionais por classe social, região e sexo. Vale a leitura.

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CategoriasAnálise, Pesquisas
  1. Ana Maria Santeiro
    19 de julho de 2012 às 1:10 pm

    valeu!

  2. 19 de julho de 2012 às 6:54 pm

    Carrenho, obrigado pelo post! Essa pesquisa é valiosa, não? De algum modo, ela oficializa aquilo que se ouve de muitos professores por aí: parece que a qualidade da educação tem decaído. Bem, isso é algo que ouço até mesmo no Ensino Superior.

    Quero adicionar um trecho do PCNEM: “as propostas […] no nível médio indicam a sistematização de um conjunto de disposições e atitudes como pesquisar, selecionar informações, analisar, sintetizar, argumentar, negociar significados, cooperar, de forma que o aluno possa participar do mundo social, incluindo-se aí a cidadania, o trabalho e a continuidade dos estudos”.

    Teoricamente, 100% dos indivíduos com Ensino Médio deveriam possuir o Nível Pleno da pesquisa realizada pelo Inaf já que esse nível exigiria apenas a leitura em “situações usuais” — mas isso é bem colocado nos comentários finais da pesquisa.

    Entretanto, quero ver até que ponto os editores irão basear-se nesses números para decidir que tipo de obra imprimir. Com todas as dificuldades dos leitores, temos produzido boa literatura e importado o que há de bom e ruim, e acredito que o mercado tem caminhado. Será que essa massa (cujo nível de leitura é baixíssimo) de fato consome alguma leitura ou compra algum livro?

    Um abraço!

  3. 20 de julho de 2012 às 1:26 am

    Reblogged this on Beto Bertagna a 24 quadros.

  4. 20 de julho de 2012 às 6:44 pm

    Carrenho, eu acrescentaria um elemento à tua análise: os editores brasileiros precisam estar sensíveis à necessidade de editar livros acessíveis aos leitores pouco proficientes. Não falo somente dos livros best-seller que você mencionou, mas também de obras científicas, filosóficas, informativas que, sensíveis às dificuldades do público, sejam redigidas e editadas de uma maneira diferente da que se costuma fazer. Quem disse que um texto rico, bom, complexo precisa ter frases longas, períodos invertidos, palavras desconhecidas? Nessa hora faz falta um projeto tão ambicioso quanto o “Primeiros Passos”, da Brasiliense, que trazia discussões importantes numa linguagem simples, familiar, coloquial. A psicolinguística tem nos ensinado como fazer isso, mas infelizmente a formação de nossos editores passa muito longe disso… O resultado são livros mal escritos e mal editados, que só atrapalham a vida do leitor que não teve acesso a um processo decente de letramento. Abraço!

  5. 29 de julho de 2012 às 6:37 pm

    Um país que tem a necessidade de produzir indicadores e categorias de analfabetos denota que há um profundo desequilíbrio nas prioridades dos gastos públicos. Os dados do relatório apenas corroboram isso: temos apenas 25% de alfabetizados (o resto é apenas estatística e casuísmo para melhor mascarar dados que não condizem com o marketing de Brasil=6ª economia mundial, porém são perfeitamente adequados ao Brasil=70ºIDH (apenas um pelinho acima das nações de médio desenvolvimento humano). Será que na Noruega há pesquisas sobre analfabetismo funcional, rudimentar, básico e pleno?

  6. 12 de fevereiro de 2013 às 7:14 pm

    Alguns dados do mercado editorial no Brasil talvez ajude a deslocar um pouco o eixo dessa conversa. O governo brasileiro é o maior comprador de livros do mundo, sozinho adquire 50% de toda a produção editorial do país. Essa metade do “bolo” é saboreada pelas grandes editoras, que conseguiram criar um verdadeiro cartório do negócio, que impede ou dificulta de todas as formas a entrada de novas e pequenas editoras no negócio. Com isto, os novos e pouco conhecidos autores também sobram, pois as grandes só “trabalham” com autores consagrados ou “revelados” por elas mesmas. Sim, seus passes ficam presos àqueles que o revelaram. Diferentemente de outros países preocupados com a inovação e a diversidade cultural, o Brasil não tem qualquer política cultural nesse sentido. A França, por exemplo, tem uma lei de incentivo às pequenas editoras e livrarias. Enquanto isto, aqui no Brasil, as pequenas editoras e livrarias estão praticamente extintas. O autor iniciante ou desconhecido tem que arcar com os custos de edição de sua obra. Distribuição/divulgação, nem pensar. Quantos aos nossos governos, Collor a Dilma, passando por FHC e Lula, nenhum deles foi capaz de inverter esse jogo de cartas marcadas e as grandes editoras continuam “controlando” o negócio do livro de forma monopolista e globalizante. E eu me pergunto, onde a diversidade cultural é valorizada hoje no Brasil? Na universidade?

  1. 20 de julho de 2012 às 2:46 pm
  2. 30 de julho de 2012 às 10:08 am

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