Frankfurt 2011 – terceiro dia

Final de mais um dia na movimentada Frankfurt. Um grande amigo reclama que adora vir pra feira, mas que seu programa sempre é sair de Frankfurt o mais rápido possível. Eu estou gostando desta cidade, devo confessar. Tá bom, não se compara à minha amada São Paulo e nem ao belo Rio de Janeiro, pra citar só as duas brasilianas, mas estou curtindo Frankfurt.

O despertar hoje foi às 6h30. Tempo pra acordar, tomar o santo banho nosso de cada dia, e caminhar até a feira com direito a pit stop pro café. Não foi nenhum suprassumo da arte barista, mas resolveu temporariamente a minha necessidade da cafeína matinal. E hoje era dia de TOC Frankfurt e International Rights Directors Meeting. Pauleira o dia inteiro.

Tinha reunião de equipe marcada às 8h30, mas ao chegar ao escritório descobri que fora cancelada em razão do início muito cedo do TOC. Voltando 1,5Km de caminhada, cheguei ao Marriott Hotel, onde rolava o TOC, para descobrir que não estava nem um minuto atrasado. Quero dizer, eu estaria se o evento tivesse começado na hora certa. Mas alguém deve ter chutado alguma tomada, ou o duende que habita os aparelhos eletrônicos resolveu zoar o evento, e um atraso de meia hora me permitiu chegar em tempo pra abertura.

Depois das apresentações oficiais – que nesses eventos internacionais são ótimas, sem a mínima enrolação política senão o mínimo comercial possível – Bob Stein iniciou o evento com uma palestra, do que me lembro porque não assisti inteira no Brasil, muito similar à apresentada no 2o. Congresso do Livro Digital, em São Paulo. Depois dele, falou Mitch Joel, autor de “Six pixels of separation”. Joel acabou sendo a sensação da manhã – matéria no site do PublishNews – e já começou a apresentação provocando: “Nenhum editor depois de Gutenberg teve a oportunidade que vocês estão tendo de mudar a história.”

Com o atraso do início, é claro que o dia todo foi “empurrado”, e pra ajudar, alguns palestrantes não cooperaram muito cumprindo o seu horário… mas 13h20 o almoço foi servido. Engoli algo que parecia uma massa, com uma carne que parecia de porco (acho que era pernil…). Até que o sabor, especialmente da carne, estava agradável. Mas nem saboreei. Saí correndo.

Atravessando duas avenidas, do Marriott para o centro de exposições da feira, entrei e corri ao Hall 4.0, sala Europa 1. Lá começava às 14h – e eles foram pontuais – a já tradicional (25a.) International Rights Directors Meeting. Quem era o foco? Brasil, é claro. Tomás Pereira (Sextante), Lúcia Riff (Agência Riff) e Eduardo Blücher (Blucher Editora) fizeram bonito na apresentação do mercado que parece ser a grande sensação da feira este ano. Pelo menos por enquanto. E olha que ainda temos mais um ano até que o Brasil seja o país homenageado, em 2013. A razão é, sem sombra de dúvida, o internacionalmente anunciado crescimento econômico brasileiro.

Parabéns, companheiros tupiniquins! Mandaram muito bem.

Na sequência vieram três apresentações sobre o mercado de Apps e Enhanced Books. Represantantes da Simon&Schuster, Harper Colins e Lindhardt og Ringhof falaram de suas experiências nessa área de desenvolvimento do mercado digital. Estranhei um pouco o tema, ou melhor, a abordagem do tema. Não entendi o que o desenvolvimento de Apps ou Enhanced Books pode interessar à negociação de direitos autorais, embora considere o tema de grande relevância ao se falar de direitos autorais.

O dia na feira terminou com o agradável reencontro com alguns dos meus novos amigos dentre os editores do Reino Unido – que há cerca de um mês e pouco nos visitaram na Terra da Garoa. Foi muito gostoso revê-los, papear e dar algumas gostosas risadas.

Mas o meu dia mesmo só terminou depois que saí de lá e fui me encontrar com Eduardo Blücer e Marcelo Gióia na praça Hawptwache. O Eduardo escolheu um agradável restaurante italiano, que no final, ao sairmos, contava com uma clientela 60% de brasileiros! Colegas da Saraiva e da Nobel escolheram o mesmo destino gastronômico.

Bom, hora de descansar um pouco. Tem mais fotos no Flickr. Amanhã a gente continua.

Frankfurt 2011 – o segundo dia

10 de outubro de 2011. Dia chuvoso e frio em Frankfurt. Levantei cedo, 7h15 (lembre-se que no Brasil isso é 2h da madrugada!) porque logo às 8h30 rolou a primeira reunião da equipe Publishing Perspectives / PublishNews Brazil, que vai trabalhar na produção do Show Daily 2011.

Mas esse clima me anima a caminhar – o “chuvoso” era apenas garoa, que engrossava vez por outra. Não gosto é do calor pras caminhadas. Em 20 minutos cheguei à entrada do centro de exibições, mas isso era só metade do caminho. Entrando pelo Hall 5 – onde, aliás, fica o estande do Brasil – lá se vai uma caminhada de mais 20 minutos, no mínimo, até o Hall 8.0, onde fica o escritório da redação. Apertei o passo, mas ainda cheguei 8 minutos atrasado. Felizmente meus companheiros alemães, norteamericanos e ingleses também não foram pontuais (se abrasileiraram, ou nós é que somos muito duros com nós mesmos?) e a reunião começou assim que cheguei. Tarefas designadas, mãos à obra.

Ed Nawotka, editor chefe, e eu ficamos responsáveis pelas fotos. E se possível, adicionar à foto alguma citação. O evento? Publishers Launch Conferences: “eBooks goes global”. A primeira organizada em Frankfurt pela dupla de “Mikes” – o Shatzkin, que é colunista do PublishNews, e o Cader, criador do Publishers Lunch – que começou neste ano a organizar conferências sobre o mundo do livro digital em diferentes partes do mundo.

Plena segunda-feira pre-feira, a conferência contou com cerca de 100 pessoas, o que é uma boa assistência considerando que para participar as pessoas tinham que viajar já no sábado, a menos que morassem ou estivessem na Alemanha já há algum tempo. O dia se dividiu praticamente em apresentações patrocinadas e painéis de discussão. Mas mesmo patrocinadas, as apresentações foram objetivas e de conteúdo. Os painéis trouxeram discussões interessantes. E o primeiro do dia contou com a participação de Sérgio Machado, presidente do grupo Record. A quem Mike Shatzkin elogiou a participação para mim.

No almoço, tive a oportunidade de conhecer um editor egípcio, da Al-Dar Al-Masriah A-Lubnaniah, uma das maiores editoras do país. Na mesa também sentou-se um francês, tão low profile que falou rapidinho o nome e nem tinha cartão da editora… mas uma das coisas mais gostosas da feira pra mim, rolou em quantidade: conexão com as pessoas.

Meu amigo argentino Octavio Kulesz me encheu de perguntas sobre o mundo digital no Brasil, principalmente no que se refere aos tablets e às “pregações” do Ministro da Tecnologia, Aloísio Mercadante. Reencontrei também a elétrica Patrícia Arancibia, Gerente de conteúdo internacional da Barnes & Noble. Conheci pessoalmente pessoas que só conhecia por email e mais alguns “Hellos” e “Olás” aqui e ali.

Mas então o meu dia virou um caos por causa de problemas no site do PublishNews, que o nosso host não era capaz de resolver. Foi uma tarde de brigas e até ligações de meia hora, via Skype (graças a Deus), para o Brasil. Depois de uns bons gritos, problema resolvido. Ufa! Mas o dia já havia acabado e eu perdi uma boa parte da conferência. Mas as coisa mais importantes você e eu podemos ler no site do PublishNews. :-)

Amanhã é que o bicho começa a pegar mesmo. O dia todo de TOC Frankfurt, uma forte conferência sobre livros digitais, e na parte da tarde um dos eventos mais concorridos da feira: International Rights Directors Meeting. O PublishNews estará cobrindo tudo, tanto no site quanto pelos Twitters e a hashtag #FBF11, como escrevi no post de ontem aqui no Blog da Redação. E tem ainda o nosso Flickr, com as fotos da feira.

Bom, amanhã tem mais.

Frankfurt 2011 – O primeiro dia

Como no ano passado, vou tentar contar pra você as aventuras de se cobrir a maior feira de livros do mundo e também histórias da própria feira.

São 19h40 aqui. A noite está começando pra mim e por aí você está, digamos, no meio da tarde. Ontem, às 17h em ponto, o meu avião aterrisava em Frankfurt, vinto de Amsterdã, onde fiz a minha escala de entrada na Europa desta vez. No total foram 18 horas de viagem, incluindo 4 horas de conexão na capital holandesa. Ah! Pela primeira vez voei no brasileiríssimo Embraer, que as companhias aéreas brasileiras desprezam – com honrosa exceção à Azul – e que a KLM adota até para voos internacionais!

Hoje, domingo, foi dia de reconhecimento do terreno. Depois de uma longa viagem como a de ontem, merecia um sono um pouco mais “comprido”. Levantei e já me fui para um Cafe, que vi ontem no caminho cá para o apartamento onde está hospedado o PublishNews. Corpo abastecido, pé na rua. Uma caminhada até a feira pra analisar distâncias e caminhos.

Por falar em distâncias, caminhos e caminhadas, mru último post terá algo interessante sobre esse tema. Mas por enquanto, vamos ao dia de hoje.

Como é bom estar em um lugar organizado, onde a imprensa é reconhecida e respeitada. E onde as coisas funcionam. Apenas expositores, o pessoal da montagem dos estandes e… a imprensa!, podem entrar nos dias que antecedem a abertura da feira.

Cheguei no guichê de entrada, mostrei o crachá de imprensa e em menos de 30 segundos já estava liberado pra entrar. E com acesso total a todos os espaços do evento. Qualquer semelhança com eventos brasileiros é mera ficção!

Na verdade tudo começa bem antes. No momento que a gente se cadastra como imprensa e recebe a confirmação da organização de que o credenciamento está ok, basta acessar a sua PÁGINA PESSOAL no site da feira (isso mesmo, o site da feira tem uma página para cada pessoa que se cadastra, seja expositor, jornalista ou visitante) onde o crachá está pronto pra ser impresso.

Para chegar aos pavilhões da feira caminhei cerca de 2Km. Dentro dela, do portão de entrada até o escritório da Publishing Perspectives & PublishNews Brazil, foram mais 1,3Km. Caminhando. Antes de mais nada, a Feira do Livro de Frankfurt requer preparo físico!

Foi ótimo rever os amigos da Publishing Perspectives que, com exceção do editor chefe, Ed Nawotka, não via desde a conferência Digital Book world 2011, em Nova York. Aliás, a conferência rola de novo em janeiro de 2012. Dá pra conferir neste link.

Voltando aos amigos da PP, a galera estava tão concentrada em finalizar os detalhes da primeira edição do Show Daily 2011, que este ano terá pela primeira vez a edição inicial na terça-feira, dia do TOC Frankfurt e da International Rights Directors Meeting, alguns dos eventos mais concorridos da feira.

Um bocado de trabalho, mas também colocamos um pouco da conversa em dia. No final da tarde saímos para um passeio de reconhecimento da feira, que proporcionou algumas fotos pré-feira – você pode conferir no nosso Flickr! Até Moby Dick você vai encontrar…

Final de dia, 2Km de caminhada de volta “pra casa”. Descanso e um delicioso jantar com toda a equipe do Show Daily FBF 2011. Agora já é hora de descansar novamente porque amanhã o bicho pega de verdade!

Antes de terminar, quem quiser pode acompanhar a cobertura via Twitter pelo @publishnews, também vou colocar alguma coisa no meu Twitter pessoal – @ricardo_costa – e pela hash tag #FBF11. Ou ainda na página do PublishNews no Facebook. Opções não faltam.

Até o próximo post.

Os exemplares que fazem a diferença

O ranking de editoras da lista de mais vendidos do PublishNews é democrático e injusto. Democrático porque contamos cada título que alcança a lista como um ponto para cada editora, permitindo assim que várias editoras menores apareçam nas listas, particularmente as mensais e anuais, com algum livro que foi sucesso por uma ou duas semanas. É injusto porque editoras que têm menos títulos na lista, mas são mais eficientes – i.e. seus títulos vendem mais exemplares e permanecem mais semanas na lista –, acabam sendo prejudicadas no ranking ao obter apenas um ponto por título.

Para tentar ser um pouco mais justo, eu fiz um estudo na lista anual do PublishNews deste ano, utilizando a somatória das listas semanais de 7/1/2011 a 13/5/2011. Basicamente, eu somei o número de exemplares que cada editora colocou na lista, independente do número de títulos. Ao fazer isto, houve sérias mudanças no ranking já que editoras com alta performance em poucos títulos galgaram várias posições.

Foi interessante observar que as 10 editoras melhores colocadas respondem por 84,04% da lista com 1.217.781 exemplares vendidos de 157 títulos. Em um universo de 63 editoras e 274 títulos que atingiram a lista, isto é bastante impressionante e mostra a concentração do mercado no que se refere a best-sellers.

É sempre bom lembrar que este estudo se baseia apenas nos 100 títulos que todas as semanas entram na lista de mais vendidos do PublishNews e não na totalidade do mercado. Desta forma, editoras que vendem bem em mercados alternativos ou possuem um catálogo forte, com long-sellers, acabam subdimensionadas neste estudo. Mas, ainda assim, trata-se de um recorte interessante do mercado.

Abaixo está o ranking por exemplares vendidos. Incluí também o número de títulos (que norteia o ranking tradicional do PublishNews) e a média de vendas dos mesmos, além da participação (share) de cada editora na lista. Críticas e sugestões são bem-vindos nos comentários.

Ranking de Editoras por Número de Exemplares Vendidos

Lista anual acumulada do PublishNews de 2011 até 13/5/2011

Grupo editorial

Qtde de exemplares na lista

Participação na lista

 Quantidade de títulos na lista

 Média de exemplares por título

Globo

297.424

20,52%

5

59.485

Sextante

198.357

13,69%

38

5.220

Ediouro

131.828

9,10%

20

6.591

Novo Conceito

123.892

8,55%

7

17.699

Intrínseca

107.750

7,44%

18

5.986

Record

101.647

7,01%

31

3.279

Santillana

80.400

5,55%

7

11.486

Planeta

71.806

4,96%

13

5.524

LeYa

56.309

3,89%

11

5.119

Vergara & Riba

48.368

3,34%

7

6.910

Melhoramentos

30.229

2,09%

9

3.359

Fundamento

27.205

1,88%

6

4.534

Universo dos Livros

25.496

1,76%

2

12.748

Vida e Consciência

22.699

1,57%

5

4.540

Companhia das Letras

22.583

1,56%

11

2.053

Gente

16.999

1,17%

4

4.250

Clio Editora

11.219

0,77%

2

5.610

Jardim dos Livros

7.591

0,52%

1

7.591

Elsevier

7.193

0,50%

11

654

Panda Books

6.718

0,46%

3

2.239

Rocco

5.558

0,38%

2

2.779

Indg

4.917

0,34%

2

2.459

Zahar

4.411

0,30%

2

2.206

Saraiva

4.289

0,30%

9

477

Blu editora

4.126

0,28%

3

1.375

Panini

3.959

0,27%

1

3.959

PI Kids

3.542

0,24%

2

1.771

Edições Loyola

2.311

0,16%

1

2.311

FEB

2.205

0,15%

2

1.103

Editora Ave Maria

2.070

0,14%

1

2.070

Ática

1.632

0,11%

2

816

Gryphus

1.543

0,11%

1

1.543

CCBB

1.529

0,11%

1

1.529

Editora Vozes

1.275

0,09%

1

1.275

Editora Vale das Letras

1.027

0,07%

3

342

Martins Fontes

993

0,07%

1

993

Melbooks

798

0,06%

1

798

L&PM

751

0,05%

2

376

Nobel

566

0,04%

2

283

Leal editora

483

0,03%

1

483

Novo Século

462

0,03%

1

462

Cosac Naify

383

0,03%

1

383

Danprewan

371

0,03%

1

371

Editora Évora

359

0,02%

1

359

Pensamento

349

0,02%

1

349

Brasileitura

337

0,02%

1

337

Editora 34

313

0,02%

1

313

Creative Books

294

0,02%

1

294

Conrad

266

0,02%

1

266

Editora Marco Zero

260

0,02%

1

260

Manole

260

0,02%

1

260

Editora Belas Letras

231

0,02%

1

231

Pensamento-Cultrix

192

0,01%

1

192

BV Films

191

0,01%

1

191

EDUFBA

187

0,01%

1

187

Prentice Hall Brasil

171

0,01%

1

171

Rideel

151

0,01%

1

151

Project Management

148

0,01%

1

148

Ciranda Cultural

110

0,01%

1

110

Cengage

104

0,01%

1

104

Editora Onça

100

0,01%

1

100

Editora Alaúde

94

0,01%

1

94

Brinque-Book

65

0,00%

1

65

Total Geral

1.449.096

100,00%

274

5.289

Mude a sua história

abril 26, 2011 3 comentários

Este texto foi escrito em 19 de abril, mas enrolei pra postar…

O slogan de uma campanha do Itaú diz: “Ler para uma criança muda a sua história”. Me pergunto se “sua” seria da criança ou do leitor…

Meu dia hoje está no avesso, e nesses dias tenho vontade de escrever. Estranho isso, não? Mas é assim. E não vou brigar comigo por causa disso. Então, vou escrever.

Acabei de ver esse slogan em um carro meio velho estacionado aqui perto do escritório e a dúvida me veio à mente. É a mágica da rica língua portuguesa. Embora seja “quase óbvio” para mim que a ideia é de que a história da criança é que vai ser mudada, não resisti a pensar na opção do “sua” referente a você, a pessoa que lê para a criança. A nossa língua permite isso; fácil.

E o melhor de tudo é que ler para uma criança muda mesmo a história de quem lê. Viajar na história com a criança é muito bom. É divertido. É inspirador. É revigorante.

E se a criança for faladeira, extrovertida, imaginativa, é bem capaz de você acabar com uma nova história nas mãos, contada por ela.

Mas ver uma criança curtir a contação de história também é muito bom. O sorriso dela, os olhos “estalados”, o interesse… e depois ela vem contar tudo pra você. Repetir a história como se não fosse você quem lhe contou! E não é que parece mais bonita a história quando ela conta do que quando você lê?

Aprender com a vontade de aprender da criança. Aprender com a simplicidade da criança. Aprender com a informalidade da criança. Aprender com a ingenuidade da criança. Isso muda a sua história. Sua. De você mesmo!

Leia para uma criança e mude a história de vocês!

CategoriasMemórias

Como fui parar na casa do Saramago

Procurando a casa do Saramago...

Ser a primeira brasileira a visitar a casa de um autor estrangeiro morto recentemente e aberta há menos de 10 dias para visitação é coisa para quem é fã número 1 do cara, certo? Ainda mais se essa casa estiver numa ilha espanhola do Atlântico mais perto da África do que da própria Espanha. Gosto muito de Saramago, mas ele nunca foi meu escritor preferido. Conto então como é que eu fui parar em Lanzarote na última quarta-feira, dia 30 de março.

Estou de férias na Europa. Se eu escrevesse sobre economia ou coisa parecida, talvez estivesse completamente desligada do trabalho. Mas com literatura a coisa é diferente. Por onde você passa tem uma foto que poderia entrar na galeria do site, ou uma biblioteca para visitar que renderia uma matéria. De repente você descobre um bar que tem uma biblioteca. Vai passar batido?

Pois bem. Na terça-feira eu estava na praia de Corralejo, em Fuerteventura, nas Ilhas Canárias, tomando uma cervejinha, lendo Alberto Manguel, descansando… Sabia que Lanzarote estava ali do outro lado do mar, que Saramago tinha escolhido aquele lugar para viver e que a casa tinha se transformado recentemente em um museu. Só não sabia que era tão fácil chegar lá. Saí então da praia e fui atrás de barco, pesquisei o endereço, fiz umas contas e escrevi uma mensagem quase telegráfica para o Carlo. “Estou nas Ilhas Canárias. Se eu atravessar o mar chego a Lanzarote e visito a casa do Saramago. Ninguém vai despencar do Brasil para escrever sobre isso. Quer matéria?”. Ele quis e eu fui no dia seguinte.

Lanzarote, Ilhas Canárias

Chegando lá foi mais barato alugar um carro do que pegar um taxi (fica a dica para quem um dia se animar). Andei, andei, subi vulcão, desci vulcão, passei por povoados (todos com suas casas super brancas) e finalmente cheguei a Tías, onde Saramago e Pilar construíram uma casa e anos depois uma outra só para os livros do casal. Que lugar! A visita guiada pela simpática Pepa Sanchez pela casa por onde um dia já passaram Ernesto Sábato, Eduardo Galeano, Bernardo Bertolucci, Maria Kodama, Sebastião Salgado e tantos outros tem duração de uma hora. A guia, que foi também secretária de Saramago e ajudava Pilar com algumas traduções, conta, em detalhes, a rotina do escritor e a história de cada um dos quadros, das estátuas, das árvores.

Camões, o preferido de Saramago, passeando pela varanda

A casa parace parada no tempo. Está da mesma forma que estava no dia em que Saramago morreu: na escrivaninha, o crucifixo; na sala, a caixinha dos óculos e o gravador; na cozinha, a mesma geléia de laranja que ele comia. Saramago não está mais ali, Pilar estava no México, mas Camões e Boli, os cachorros do escritor, ficam felizes da vida com as visitas cada vez mais frequentes. Eu fui a de número 84 e, pelo que me disseram, a primeira visitante do Brasil.

Mais detalhes sobre a casa? Leia na semana que vem no PublishNews!

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